Endometriose: sintomas, diagnóstico e tratamento explicados com clareza

Publicado em junho de 2022 – Atualizado em 25 de maio de 2026. 

A endometriose é uma das condições ginecológicas mais prevalentes e ao mesmo tempo mais minimizadas. Estima-se que afete entre 10% e 15% das mulheres em idade reprodutiva. Muitas delas convivem com a doença por anos sem saber, atribuindo as dores a “cólicas fortes” ou a variações normais do ciclo. Essa normalização tem um custo real: o atraso médio entre os primeiros sintomas e o diagnóstico ainda gira em torno de 5 a 10 anos.

Este texto explica o que acontece no corpo, quais sinais merecem investigação e como avançamos no tratamento de forma individualizada.

O que é endometriose?

O endométrio é o tecido que reveste internamente o útero. A cada ciclo menstrual, ele cresce sob estímulo hormonal e é eliminado durante a menstruação quando não ocorre gravidez.

Na endometriose, células com comportamento semelhante ao endométrio se instalam fora do útero: nos ovários, em certos ligamentos, no peritônio, no intestino, na bexiga ou em outros órgãos. 

A presença destes focos leva a um processo inflamatório crônico local e com o tempo, à formação de aderências, que são estruturas de tecido cicatricial que podem “colar” órgãos uns aos outros, distorcer a anatomia da pelve e, em alguns casos, comprometer a função das tubas uterinas, levando à infertilidade. 

Quais são os sintomas que merecem atenção?

A endometriose não tem uma apresentação única. Algumas mulheres têm doença extensa e quase nenhum sintoma. Outras têm focos pequenos e dores muito intensas. Não há uma relação direta entre o tamanho ou quantidade das lesões e a intensidade dos sintomas.

Os sintomas mais frequentes são:

Dor pélvica que piora durante a menstruação e, com a progressão da doença, pode se tornar quase constante ao longo do ciclo.

Dor durante a relação sexual, especialmente em penetração profunda.

Dor ao evacuar ou ao urinar, em geral com piora no período menstrual, que pode indicar envolvimento intestinal ou urinário.

Dificuldade para engravidar, que em alguns casos é o primeiro e único sinal da doença.

Um ponto importante: cólicas menstruais que impedem atividades cotidianas, que exigem analgésicos fortes ou que vêm piorando ao longo dos anos não são normais. Esse é o sinal que mais frequentemente é ignorado e que mais atrasa o diagnóstico.

Como é feito o diagnóstico?

A investigação começa pela história clínica. Durante a consulta, a avaliação dos sintomas, a sua distribuição ao longo do ciclo e o exame ginecológico são os primeiros passos.

Os exames de imagem mais usados são a ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal e a ressonância magnética de pelve. O preparo intestinal pode ser necessário tanto para realização do ultrassom quanto da ressonância e envolve uma dieta específica e uso de laxantes na véspera do exame para melhorar a visualização dos focos.

Os exames têm algumas limitações: eles identificam lesões de endometriose profunda com boa acurácia, mas focos superficiais podem não ser vistos. Isso não invalida o diagnóstico clínico. Quando os sintomas são consistentes com a doença e os exames são negativos, o tratamento pode ser iniciado de forma empírica, com base na apresentação clínica, sem necessidade de confirmação por métodos mais invasivos, como a cirurgia.

O diagnóstico definitivo pela videolaparoscopia existe, mas reservamos esse caminho para situações específicas, não como primeira etapa de investigação.

Endometriose e fertilidade: qual a relação?

A endometriose está presente em 30% a 50% das mulheres com dificuldade para engravidar. Apesar disso, a maioria das mulheres com endometriose consegue engravidar, seja de forma espontânea ou com algum tratamento.

Entenda como a endometriose pode afetar a fertilidade e o que fazer se você tem endometriose e quer engravidar no post abaixo, onde eu detalho a relação entre endometriose e fertilidade:

Endometriose e fertilidade: É possível engravidar naturalmente?

Como é feito o tratamento?

A endometriose é uma doença crônica. O tratamento não tem como objetivo a cura; e sim aliviar os sintomas e preservar a qualidade de vida. 

Avaliamos cada caso considerando a intensidade dos sintomas, o desejo ou não de engravidar, a presença de comprometimento de órgãos adjacentes e as preferências da paciente.

Tratamento clínico

O objetivo principal é suprimir a atividade dos focos de endometriose, que são responsivos a hormônios. Quando os focos ficam “em repouso”, a dor tende a melhorar. Esse controle é alcançado em cerca de 80% dos casos com o tratamento hormonal adequado.

As opções incluem anticoncepcionais combinados (pílula, adesivo ou anel), progestágenos isolados como o dienogeste, o DIU hormonal e o implante subdérmico.

O DIU hormonal é uma boa opção para mulheres com endometriose que não desejam engravidar no momento: além de controlar a dor, oferecem anticoncepção eficaz sem exigir rotina diária.

Cirurgia

A cirurgia, feita por videolaparoscopia, é indicada quando o tratamento clínico não controla os sintomas adequadamente, quando há lesões em locais de risco (intestino, ureter, bexiga) ou quando há endometriomas grandes nos ovários. O objetivo é remover todos os focos visíveis.

É importante mencionar que a cirurgia não elimina o risco de recorrência da doença. Por isso, o tratamento médico após a cirurgia é parte fundamental do manejo a longo prazo.

Quando há desejo de engravidar

O tratamento hormonal, na maioria dos casos, tem efeito contraceptivo. Por isso, quando há desejo reprodutivo, avaliamos caminhos diferentes: monitorização e tentativa natural, cirurgia para melhorar as condições anatômicas ou técnicas de reprodução assistida como a fertilização in vitro (FIV), a depender do quadro.

Além do tratamento médico

A endometriose é uma condição que afeta o corpo inteiro e, muitas vezes, a vida como um todo. A dor crônica interfere no trabalho, nas relações e na saúde mental. Por isso, a abordagem ideal envolve profissionais de outras áreas além da ginecologia.

Fisioterapia pélvica, acompanhamento nutricional e suporte psicológico são parte do manejo completo da doença, não complementos opcionais. Cada caso vai exigir uma combinação diferente dessas ferramentas.

Se você reconhece esses sintomas, o próximo passo é uma avaliação detalhada

Cólicas que você passou anos considerando normais, dor durante a relação sexual que nunca foi investigada, dificuldade para engravidar sem causa aparente: esses são sinais que merecem atenção e que, juntos, fazem parte de uma anamnese bem estruturada.

Se você quer entender o que está acontecendo no seu corpo e construir um plano de cuidado com base no que é real para o seu caso, o próximo passo é uma consulta. Podemos conversar sobre isso juntas.

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Dra. Carolina Kowes
Ginecologista

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Dra. Carolina Kowes - Ginecologista

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