Publicado em 24 de julho de 2026.
Ao contrário do que muitos podem imaginar, a produção de óvulos não acontece de forma contínua ao longo da vida da mulher e para após a menopausa.
As mulheres nascem com todo o seu estoque de óvulos já formado. Com o passar dos anos, ocorre uma perda progressiva desse estoque. A perda se acelera de forma significativa após os 35 anos, e é o fim desse estoque e não uma “produção mais lenta”, que define a janela reprodutiva.
O mito da produção mensal de óvulos
Os óvulos são formados exclusivamente durante a vida fetal, com pico entre a 7ª e a 20ª semana de gestação, quando o feto feminino chega a ter entre 6 a 7 milhões de folículos ovarianos, estruturas nos ovários que guardam os óvulos.
A partir do nascimento, esse estoque só é consumido, nunca reposto. O consumo é contínuo e independe de gravidez, uso de anticoncepcional ou da regularidade dos ciclos: mesmo quem usa pílula continua perdendo folículos, porque a maior parte deles é eliminada por atresia (um processo natural de degeneração), não por ovulação.
Quando esse estoque atinge um patamar crítico, geralmente abaixo de 1000 folículos, o ciclo menstrual cessa e ocorre a menopausa.
Se quiser entender a fisiologia da reserva ovariana em detalhe, escrevi sobre isso aqui: O que é reserva ovariana? Entenda como funciona a contagem dos óvulos.
A queda se acentua depois dos 35 anos
A perda de reserva não é linear. Na idade reprodutiva é relativamente lenta até por volta dos 35 anos e depois entra em uma curva mais íngreme, com queda ainda mais pronunciada a partir dos 37. O passar dos anos afeta dois eixos ao mesmo tempo:
- Quantidade: menos folículos disponíveis.
- Qualidade: menor qualidade dos óvulos remanescentes, o que impacta tanto a chance de gravidez quanto o risco de perda gestacional.
É esse segundo ponto, a qualidade, que explica por que a idade é a variável mais determinante em qualquer planejamento reprodutivo, independentemente do resultado de exames dos exames de reserva ovariana.
Quais fatores influenciam a reserva ovariana?
Além da idade, existem outros fatores que interferem na reserva ovariana.
Fatores biológicos e comportamentais
| Fator | O que se sabe |
| Histórico familiar | Mãe com menopausa antes dos 40 anos ou insuficiência ovariana prematura (IOP) aumenta de 6 a 8 vezes o risco de repetir o quadro |
| Tabagismo | Pode antecipar a menopausa entre 1 e 4 anos, com relação dose-dependente |
| Nuliparidade ou menarca precoce | Nunca ter engravidado combinado à primeira menstruação antes dos 12 anos está associado a risco até 5 vezes maior de menopausa precoce, quando comparado a quem teve menarca após os 12 anos e dois ou mais filhos. Embora tenha sido identificada essa associação, não se pode afirmar com certeza uma relação de causa e efeito |
Outros fatores
- Cirurgias ovarianas prévias (retirada de cistos, endometriomas, tumores) podem reduzir a reserva pela perda de folículos ovarianos durante o procedimento.
- Quimioterapia, especialmente com agentes como ciclofosfamida e cisplatina, entre outros
- Radioterapia pélvica com exposição dos ovários
- Histerectomia (retirada do útero), mesmo preservando os ovários, pode alterar o fluxo sanguíneo ovariano e antecipar a menopausa em cerca de 1,9 ano, em média.
Quem precisa avaliar a reserva ovariana
A avaliação da reserva ovariana através da dosagem do hormônio anti-mülleriano (AMH) e da contagem de folículos antrais por ultrassom como rotina para todas as mulheres ainda têm benefício incerto, mas pode fazer a diferença em cenários específicos:
- Investigação ou tratamento de infertilidade
- Histórico familiar de IOP ou menopausa precoce
- Investigação de síndrome ovariana metabólica poliendócrina (SOMP/SOP)
- Avaliação para congelamento de óvulos
- Programação de cirurgias pélvicas ou tratamentos oncológicos
- Mulheres na perimenopausa
Um ponto importante para quem está pensando em preservar a fertilidade: o resultado do AMH informa quantidade, não qualidade, e não prevê com precisão o tempo que resta até a menopausa nem garante uma gravidez futura. É um dado para orientar decisão, não um diagnóstico. O plano reprodutivo é sempre individualizado e pesa outros fatores além da reserva isolada.
Para aprofundar como a idade se relaciona com a fertilidade de forma mais ampla, veja: Com quantos anos a fertilidade da mulher diminui?
Perguntas frequentes
A reserva ovariana pode aumentar com mudança de hábitos, suplementos ou dieta?
Não. Não existe intervenção comprovada capaz de aumentar o número de óvulos. Hábitos saudáveis podem ajudar a preservar a qualidade do ambiente hormonal geral, mas não revertem nem desaceleram de forma comprovada a perda folicular.
Uma reserva ovariana baixa significa que não vou conseguir engravidar?
Não. A baixa reserva indica menor quantidade de óvulos disponíveis, o que pode reduzir a resposta a tratamentos como a fertilização in vitro e o congelamento de óvulos, mas não impede a gravidez espontânea nem define, sozinho, um prognóstico. A avaliação precisa considerar idade, ciclos, histórico e demais exames.
Uso de anticoncepcional ou gravidez “poupa” óvulos para o futuro?
Não. A grande maioria dos folículos é perdida por atresia, não por ovulação. Suspender a pílula ou não engravidar não conserva reserva ovariana.
Com que idade vale a pena considerar o congelamento de óvulos?
Não existe uma idade única certa para todas as mulheres. Depende da reserva atual, do planejamento de vida e do tempo estimado até uma tentativa de gravidez. Em termos gerais, quanto antes o procedimento é feito dentro da idade reprodutiva, maior tende a ser o número de óvulos maduros e de boa qualidade coletados por ciclo de estimulação.
Falo com mais detalhes sobre esse tema no post: Qual a melhor idade para congelar óvulos?
Para quem procura por orientação individualizada
Conhecer a sua reserva ovariana pode te ajudar a tomar melhores decisões. Seja para planejar uma gravidez agora, seja para avaliar o congelamento de óvulos com mais segurança, ter esse número em mãos, interpretado dentro do seu contexto clínico completo, é o que permite montar uma estratégia realista.
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